Biografia de Adriana Calcanhotto

Adriana Calcanhotto

  • Genero: MPB
  • Website: www.adrianacalcanhotto.com
  • Nacionalidade: Brasileira
  • Enviado por: Letras de Músicas

Biografia

Enviado por: Carolinica

A menina nasceu em Porto Alegre, capital do estado mais ao sul do Brasil, na fronteira (tanto geográfica quanto cultural) com a Argentina. Um estado que, coisa rara no País, tem as quatro estações do ano, e não faz jus à quase nenhum dos estereótipos nacionais: poucas mulatas, carnaval tímido, um nada de bananeiras, quase nenhum sambista. Até mesmo para padrões americanos, uma região colonizada tardiamente, com cidades que se desenvolveram a partir do final do século XIX, fundadas por espanhóis, portugueses, alemães e italianos. Italianos como os Calcanhotto, portugueses como os Cunha.
O baterista Carlos Calcanhotto e a bailarina e professora de educação física Morgada Cunha viram nascer sua primogênita dia três de outubro de 1965. Adriana veio ao mundo libriana, com ascendente em áries e meio do céu em capricórnio. Ela e seu irmão Cláudio, três anos mais novo, cresceriam num ambiente totalmente envolvido com arte. O pai ensaiava na garagem de casa seus grupos de jazz e bossa-nova, a mãe incentivava nos dois o gosto pela dança. O toca-discos rodava Pink Floyd e Astor Piazzolla, João Gilberto e Miles Davis. Já o rádio de pilha da babá tocava os artistas mais populares do momento. Que, em sua maioria, faziam uma espécie de rock diluído com balada, de temática geralmente romântica que, em plena ditadura militar, se agrupara sob o rótulo de “Jovem Guarda”. E que, aos poucos, fora se tornando menos ingênuo, sendo batizado pelas pessoas de “bom gosto” como “brega” (brega era sinônimo de casa de prostituição). Ou seja: já desde o berço, a menina não gostava (só) do bom gosto.
E então os anos de formação. Aos seis anos ganha um violão da vó e vai estudar com um amigo bossa-novista de seu pai. Com 12, pratica um pouco de piano, mas quer mesmo é ser tenista. Tava convencida disso até que, coincidência ou não, volta de suas primeiras férias no Rio - com a família -, tomada por uma estranha coceira. Coceira por voltar ao violão. E, automaticamente, fazer brotarem as primeiras canções. Tinha 13 anos. Um ano depois, adiciona o dado que faltava em sua equação: descobre a literatura modernista. Aquela que, centrada nos protagonistas do que foi conhecido como a Semana de 22, criou o conceito da moderna literatura brasileira, influenciada pelas vanguardas européias da época, mas misturada às mais profundas raízes folclóricas do País. Nesses mesmos 13 anos em descobre a fonte, Adriana também descortina os discípulos desses primeiros modernistas: os tropicalistas. Músicos que, Caetano Veloso à frente, traduziram para a canção brasileira dos anos 60 vários daqueles conceitos modernistas criados 40 anos antes na literatura, no teatro e na música erudita. Só que os tropicalistas apostavam também numa radicalização do impasse entre “bom” ou “mau” gosto em arte. Modernistas + Tropicalistas: a equação seria o marco zero da produção de Adriana.
Por isso, era natural que, ao aparecer no meio da enxurrada de cantoras que, nos anos 80, inundaram seu estado, ela imediatamente se destacasse. E não por ser quem a que melhor cantava. O time tinha grandes cantoras, muitas melhores que ela – ainda que Adriana tivesse começado a estudar canto lírico. O que havia de diferente nesta, então?
Em primeiro lugar, chamava a atenção de imediato a inteligência da menina de 20 anos, imensos olhos verdes e um quase imperceptível rabo de cavalo - meia dúzia de fios poupados do radical chic corte de menino. Naquele ano de 1985 explodia uma nova geração de roqueiros por todo o Brasil, colocando o rock nas paradas locais como nunca antes havia estado. As rádios FM se segmentavam e, por toda a nação, o sujeito tinha de decidir definitivamente se era roqueiro ou adepto da MPB. MPB sigla de Música Popular Brasileira, a mesma que, depois de 20 anos de hegemonia cultural, se via profundamente ameaçada no trono do... bom gosto.
Só que o discurso da menina – que falava muito e falava bem – era, como se viu, outro. Baseado, como sua música, num tripé: a MPB e as duas “guardas” revistas pelo movimento tropicalista: a Jovem Guarda e vanguarda. Era uma artista de fronteira, num estado de fronteira, num momento de estabelecerem-se fronteiras. Mas também pontes. Pontes para o futuro. Quem vivesse e soubesse, veria. Não por acaso, seu primeiro espetáculo – depois de um ano amadurecendo o contato com o público cantando em bares pra ninguém ouvir – se chamava Tupiniquim. Um termo que, para os intelectuais brasileiros, remetia imediatamente à Semana de 22.
Mas é importante pontuar que havia alguma coisa de peculiar naquela cidade, naqueles anos. Momento que alguém já definiu como “a época em que Porto Alegre achava que era a Berlim dos anos 20”. Uma cena onde, por um lado, Adriana e uma turma de teatro e artes visuais buscava essa mistura, essa diluição de fronteiras. E, por outro, no rock, acontecia o mesmo, bem diferente do que se fazia no resto do País. Enquanto no Rio, São Paulo e Brasília as bandas copiavam modelos ingleses do momento, em Porto Alegre se misturavam as mais radicais vanguardas européias, como o serialismo da Escola de Viena, com as mais populares canções “bregas” brasileiras.
Por isso, por estar sintonizada com esse momento, Adriana chamou a atenção mesmo de quem não tinha interesse no que se fazia então à sua volta. Gente voltada para Berlim, Londres, Nova York. Gente interessada em música, teatro, dança, artes em geral. Gente muito mais velha e experiente, mas que via nela um imenso talento prestes a explodir. E não só como cantora. Afinal, a menina compunha! E bem!!!
Foi, portanto, bastante natural a acolhida que teve quando procurou um dos mais respeitados diretores teatrais da sua cidade: Luciano Alabarse – hoje também produtor brasileiro de artistas como Peter Brook e Isabelle Hupert. Luciano, desde os anos 70, havia feito parte da história de quase todas as cantoras de sua terra. E, entre os dois, foi amor à primeira vista. Em pouco tempo formavam uma dupla inseparável, com uma imensa lista de interesses em comum: os escritores de 22, os tropicalistas de 67, as vanguardas européias e nova-iorquinas daqueles anos 80. E os novos compositores que surgiam naquele momento, como Carlos Sandroni e Péricles Cavalcanti. Começam imediatamente a trabalhar numa velocidade quase insana.
Em 86 foram três shows diferentes, com muitas apresentações de cada um: Crepom, A Mulher do Pau Brasil e Sei Que Estou Errada. E só precisou um ano e meio. Em menos de 18 meses Adriana já tinha um público cativo, estrelava espetáculos cada vez mais performáticos e havia até simulado masturbação enquanto fazia vocalises assustadoramente sensuais na primeira montagem de um texto de Jean Genet na cidade: O Balcão, evidentemente dirigido por Luciano. De quebra, seguia defendendo o pão de cada dia no circuito de bares, em shows em duo com uma outra amiga cantora chamada Luciana Costa.
Em 87, mais cinco – CINCO!!! – espetáculos diferentes. Como Nunca Fui Santa, com título inspirado em Marilyn Monroe e repertório tangenciando Carmen Miranda. Outro deles, Vítima, a leva pela primeira vez para fora da sua cidade: São Paulo, rumo natural, a mais cosmopolita das capitais brasileiras de então. A recepção paulista é previsivelmente boa. E fecha o ano em grande estilo, protagonizando uma inusitada cena de nudez. A noite era de show de Rita Lee, a mais importante roqueira brasileira, que começara sua carreira na banda tropicalista Os Mutantes. Pois, durante a canção Miss Brasil 2000, Adriana surge do nada, segue até a frente do palco do maior ginásio da cidade e, surpreendentemente, despe a capa que cobria seu corpo totalmente nú. Na frente de 10 mil pessoas. O que foi uma brincadeira surgida entre as duas, no camarim, acabou virando um quadro fixo no show de Rita, com diferentes meninas, pelo resto da turnê. Problemas? Nenhum. Sou do Rio Grande, não tenho medo de nada.
No ano seguinte, mais três espetáculos em diversas temporadas gaúchas e paulistas, sempre com Luciano. O destaque é Batom, seu maior sucesso de público até aquele momento. Corria o roqueiro ano de 1988 e quase ninguém queria ouvir MPB, em lugar nenhum do Brasil. Em seu estado, Adriana era uma das raríssimas exceções. Seus espetáculos também eram cada vez mais performáticos, pós-tudo naqueles tempos pós-modernos. Com seu cabelo agora platinum blonde ela podia estar percutindo o corpo e cantando como Bob McFerrin ou cantando uma marchinha de carnaval da década de 30. Formando assim um público cada vez mais constante e apaixonado por tudo – tudo - que ela fizesse.
Foi quando, como boa parte dos artistas brasileiros desde os anos 20, resolveu tentar a sorte no Rio de Janeiro.
O que era pra ser uma única apresentação no cult bar Mistura Up, em Ipanema, se transformou numa temporada de cinco semanas, com direito a crítica consagradora em um dos mais importantes jornais do País: o Jornal do Brasil. Méritos dela e de uma então prestigiada atriz carioca chamada Maria Lúcia Dahl. Que, encantada com o talento da moça, agendou esse primeiro show e passou a apresentá-la, apesar de toda sua timidez, pra Deus e todo o mundo. Mas o show ajudava muito. Afinal, era um apanhado da carreira de Adriana. Carreira muito peculiar: inacreditáveis TREZE shows diferentes em apenas quatro anos... e UMA única experiência fonográfica, numa coletânea que quase ninguém ouviu chamada Geração Pop, lançada em 1989 pelo selo local RBS Discos – onde gravou Suspeito, balada light do vanguardista paulista Arrigo Barnabé e uma canção sua, Viu? Seu negócio era mesmo o palco.
E aí, o que já tinha sido rápido, seguiu veloz, mas agora em escala nacional: leva o novo espetáculo pra São Paulo, grava um especial pra TV Manchete - que surgia com uma nova proposta, lançando especiais de cantoras como a também iniciante Marisa Monte. Quando se dá conta, está contratada pela Sony Music. E, antes mesmo de começar a gravar o primeiro disco, pisa no palco do Festival de Montreux, na mesma delegação brasileira que, naquele ano, incluía João Gilberto.
O álbum de estréia, Enguiço, foi lançado em 1990. É uma superprodução, com direito aos melhores arranjadores brasileiros daquele momento. E a uma das maiores honras nacionais: ter uma música na trilha da novela das oito da TV Globo. E é preciso que se tenha a real dimensão do que isso representa num país como o Brasil, praticamente regido pela novela das oito. As modas, os comportamentos, são influenciados por ela. E vice-versa. Um fenômeno que acabou se transformando num fator de unificação nacional, num País de tamanho tão continental. Ter uma música ali é ter um passaporte carimbado para o sucesso. Mas que, nem sempre é usado como poderia.
A canção se chamava Naquela Estação, e era um presente de três dos maiores compositores do País: Caetano Veloso, o bossa-novista João Donato e o membro do Clube da Esquina Ronaldo Bastos.
Só... que quem já a conhecia, estranhou MUITO o disco. Era um álbum nitidamente planejado pra causar impacto, grandiloqüente e muito distante dos conceitos que vinham sendo desenvolvidos com cuidados de ourives pela moça. Over-produzido, over-cantado, cheio de exageros. Mas absolutamente inserido naquele momento da música brasileira, em que a já citada Marisa Monte aparecia como a salvação da indústria do disco. Indústria que começava a entrar em crise, por apostar, desde os anos do rock, na monocultura. Ainda não houvera o estouro da moda seguinte, o axé, e havia um espaço a ser preenchido. Adriana seria uma das maiores apostas, junto com Marisa e a também cantora Cássia Eller. Até por isso, não se podia arriscar um investimento desses deixando a moça solta pra fazer o que bem entendesse.
A gravadora escalou então o produtor que assinava os discos das cantoras mais populares do momento. Mas o excesso de cautela, aliado ao desinteresse de Adriana em gravar naquela hora, daquela forma, deram no que deu. Um disco estranho, salvo pelo hit Naquela Estação, uma das poucas faixas co-produzidas por ela. De qualquer forma, vendeu perto de 50 mil cópias, performance razoável para uma estréia, e lhe deu o prestigiado Prêmio Sharp de Revelação Feminina. Mas, mais que tudo, ensinou uma lição que a moça levaria para o resto da vida: aprendi cedo que não se faz disco sem desejo.
Com o contrato assinado, estava garantida sua mudança definitiva para o Rio de Janeiro, e viabilizada sua primeira turnê nacional, na base de sua especialidade: voz & violão.
Levaria ainda dois anos para querer – e conseguir – finalmente gravar um disco com desejo. Um trabalho realmente seu, com total controle sobre o resultado final e co-produzido por ela. É Senhas, que já abre com o manifesto que lhe dá título:

Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto

(...)

Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem...

O disco emplaca mais uma música em novela – ¬Mentiras, da própria Adriana – e começa seu processo de instalação no mainstream da MPB. Tinha 28 anos de idade e era uma surpreendende cantautora, que finalmente conseguia, num disco, mostrar a naturalidade com que sabia fazer conviver Caetano Veloso, sambas clássicos e suas próprias canções.
E nem precisava muitas dessas canções. Bastava Esquadros para mostrar o talento da compositora. A canção dedicada ao irmão Cláudio dizia, num irretocável formato de balada:

Eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo, cores
Passeio pelo escuro,
Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
E como uma segunda pele, um calo, uma casca, uma cápsula protetora, eu quero chegar antes
Pra sinalizar o estar de cada coisa, filtrar seus graus

(Irmão que, aos 25 anos de idade, se dedicava ao mais cabeludo trash metal, destroçando a bateria.)

Eu ando pelo mundo, divertindo gente, chorando ao telefone
E vendo doer a fome dos meninos que têm fome

Pela janela do quarto, pela janela do carro, pela tela, pela janela (Quem é ela? Quem é ela?) eu vejo tudo enquadrado.
Remoto controle...

(...)

Eu ando pelo mundo, e meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço?..

Meu amor, cadê você?
Eu acordei, não tem ninguém ao lado...

O impacto do disco é impressionante, mais em respeito que propriamente em popularidade. Mas gera mais uma infinita tour. Em apenas um ano foram 170 shows de voz & violão, por todos os cantos do País. Mentiras (conhecida por seu primeiro verso: nada ficou no lugar...) fica meses nos primeiros lugares das paradas, lhe dá seu primeiro Disco de Ouro - mais de 130 mil cópias vendidas - e a primeira temporada na mais importante casa de shows do País: o Canecão do Rio de Janeiro.
A partir daí, em vez de deitar na rede e virar jovem diva da MPB, Adriana foi radicalizando. Faz concertos com orquestras em sua cidade natal, segue rodando o Brasil e, em 94, mostra seu impressionante amadurecimento lançando pela Epic o ousado e bastante intelectualizado A Fábrica do Poema – disco do ano, segundo a crítica carioca.
Disco que, pra não romper a tradição, emplaca mais uma música na principal novela da principal emissora: a balada (são sempre baladas as canções suas em novelas) Metade. Programada pelo velho parceiro Luciano Alabarse, é também uma das atrações da primeira edição do festival Porto Alegre em Buenos Aires, arrebatando o público em seu primeiro show na capital Argentina, onde logo será um grande nome. Aí, como consagração definitiva para qualquer compositor brasileiro, a veterana e seleta cantora Maria Bethânia (irmã de Caetano Veloso) grava duas canções de Adriana: Uns Versos e Âmbar. A última vira inclusive título do álbum de Bethânia.
A Fábrica do Poema inaugura a prática de citações profundamente eruditas que já se insurgiam anteriormente, mas vai nortear parte de seu trabalho justamente a partir dali. Até uma entrevista do veterano cineasta brasileiro Joaquim Pedro de Andrade para o jornal francês Libération vira música. Outra canção homenageia a vanguardista arquiteta brasileira Lina Bo Bardi. O co-inventor da poesia concreta, Augusto de Campos, declama um poema do obscuro Pedro Kilkerry. Uma gravação de Gertrude Stein lendo um poema seu é montada sobre música incidental do seminal dodecafônico Alban Berg. E por aí vai, com resultados mais ou menos musicais, mais ou menos experimentais.
As imersões na cultura erudita seguem em 95, quando é convidada para montar um show-performance para o lançamento da primeira edição brasileira das obras completas do poeta português Mário de Sá-Carneiro. Na mesma época, posa vestida e maquiada como Frida Kahlo para um ensaio fotográfico. O leque de interesses não pára de se expandir.
Mas aí, em 97, uma auto-declarada crise artística. Pra conseguir pensar num novo trabalho, repete o processo de pré-criação de A Fábrica do Poema: se manda com amigos para Nova York, a fim de limpar a mente e buscar idéias. Na volta, está gestado o trabalho seguinte. A idéia era fazer um disco sobre a dança, com canções que pensassem nisso e canções que fizessem dançar. Um assalto à sua casa, onde o ladrão leva todos seus discos, faz com que Adriana mude-se para Ipanema, bairro de frente para o mar. A partir daí, o conceito do disco muda e nasce Maritmo, que seria lançado em 1998.
O CD repete e aprofunda os ingredientes do anterior – as obras-roupa chamadas parangolés, do artista plástico tropicalista Hélio Oiticica, o cinema radical do decano Mário Peixoto e a participação especial de Hermeto Paschoal convivem com uma aproximação de Adriana à nova cena carioca, de artistas como Pedro Luís & A Parede. Mais uma vez ela assina como produtora, sendo que, em algumas faixas, em parceria com o figurão Liminha (outro ex-integrante de Os Mutantes, e um dos principais produtores brasileiros). Como tempero final, batucadas coerentes com letras como a literalmente antropofágica Vamos Comer Caetano. Apesar da erudição ainda mais exigente que a de seus predecessores, Maritmo chega também ao disco de ouro: mais de 150 mil cópias. Uma surpresa.
Uma surpresa que glosa todo o tempo o mote do mar, já desde o título. A palavra correta em português é marítimo, com “i”. Maritmo é uma brincadeira inspirada na poesia concreta, fundindo as palavras mar + ritmo. Como ponto central de um disco voltado ao mar, a participação do mais oceânico dos compositores brasileiros: o venerável baiano Dorival Caymmi.
“Quem vem pra beira do bar nunca mais quer voltar (frase da canção de Caymmi) é a história da minha vida. (...) As pessoas ficam rindo: ah, mas ela é branca, não vai à praia. Não tem importância, eu sou uma pessoa do mar, eu sou uma pessoa dos barcos. (...) Poucas coisas situam a gente tanto quanto estar no mar, estar num barco. (...) Você não pode nada contra aquilo, (...) você só pode estar no mar para vencê-lo.
Psicanálise total.
Quando o milênio acaba, Adriana está consagrada. Consegue como poucos artistas oscilar entre a mais profunda erudição e a balada de amor da novela – desta vez são duas baladas, em duas novelas: Vambora, e um velho hit dos tempos de Porto Alegre: Mais Feliz, parceria do precocemente falecido roqueiro Cazuza com o baixista Dé e Bebel Gilberto. O resultado, mais uma vez, vende bem, mas não é um fenômeno de popularidade. Só que essa nunca pareceu ser a meta de Adriana, sempre arredia a aparições televisivas ou ao mundo das revistas de celebridades. Mas sempre trabalhando muito, mantendo a média de mais de 100 shows ao ano, e com uma carreira se solidificando em Portugal e Argentina. Portugal, aliás, que recebe a estréia mundial do show Maritmo.
Consegue também estabelecer uma relação com as gravadoras que lhe permite lançar discos em espaços de quatro anos, com longas gestações e nenhuma pressa na sua feitura. Ainda que isso implique em rompimentos de contratos e arquivamentos de projetos, como o disco infantil, que começa a ser gestado ali, em 99, mas levaria ainda muito tempo para nascer.
Tinha conquistado um espaço de respeito nacional e o direito (raro) de fazer o que quisesse, quando quisesse e com quem quisesse. De trilhas para cinema e desfiles de moda a performances em homenagens a poetas e artistas plásticos. As artes visuais cada vez mais a interessam, e não só como espectadora: começa a trabalhar em capas de discos de amigos e a desenhar e pintar com cada vez maior assiduidade, ainda que para consumo interno. Enquanto isso, aumentando e aprofunda seu interesse e fascínio pela obra de Hélio Oiticica, o artista visual e performer responsável por boa parte dos conceitos estéticos da Tropicália. Vai participar de eventos ligados à sua memória, estudar sua estética, tentar traduzi-la em música e vida.
Tudo isso não era pouca coisa. Com apenas quatro discos lançados até aquele momento – apenas três deles verdadeiramente autorais – era um nome definitivamente inscrito na cultura brasileira.
Em novembro de 99 estréia e grava, ao vivo, o show quase-solo Clandestino ou Ilegal, Imoral ou Engorda ou Se o Amor é Fantasia eu me Encontro Ultimamente em Pleno Carnaval. Só ela, voz e violão, mais a participação especial do percussionista Marcelo Costa. O formato que sempre foi o do seu dia-a-dia, naturalmente foi o escolhido para virar seu primeiro registro ao vivo. Em fevereiro vai pra Nova York, mixar e masterizar o trabalho. Lança com o título de Público, em abril de 2000, pela BMG, sua nova gravadora.
E aí o mundo veio abaixo.
Graças a Devolva-me, clássico da dupla jovem-guardista Leno & Lílian. Era uma daquelas canções aprendidas na infância, com a babá. E que, como de outras vezes, entra na trilha de mais uma novela. Só que, desta vez, provoca uma explosão inédita, fazendo com que Público bata todos seus recordes anteriores de vendagem: o dobro de todos seus discos até ali, juntos: meio milhão de cópias.
Era um novo patamar de popularidade se estabelecendo – e, ironicamente, com um disco lançado no elitista Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Susto após susto, enquanto corre o País com a nova turnê, vai se tornando um dos artistas brasileiros mais populares do começo do novo milênio, junto a colegas de universos muito distantes do seu, como a dupla sertaneja (brazilian country?!?) Bruno & Marrone, o pop teen de Sandy & Júnior e o samba balada-romântica de Alexandre Pires. Um fenômeno absolutamente inusitado para todo mundo que acompanhava sua carreira. Inclusive ela.
O sucesso vem tão caudaloso e popular que, ao mesmo tempo em que Vambora ganha o prêmio Sharp de Melhor Canção Pop-Rock, Adriana leva também dois Troféus Imprensa, da rede de TV SBT - eminentemente direcionada a públicos de classe B, C e D. Em contrapartida, ganha seu primeiro Disco de Ouro em Portugal. Ao qual se seguem novas temporadas argentinas e uma excursão portuguesa com uma banda all star: os brasileiros Zeca Assumpção (ex-sideman de Egberto Gismonti e Chico Buarque) no baixo acústico, e Marcos Suzano (Sting, Lenine) na percussão. Mais o mítico tocador de guitarra portuguesa António Chainho. Aproveitando o embalo, a Som Livre lança a coletânea Perfil, que novamente bate todos os antecessores num número inacessível a imensa maioria dos artistas brasileiros: um fabuloso milhão de cópias.
Pra completar, a definitiva inserção na família Veloso: no mesmo ano faz participações em shows de Bethânia, Caetano, e de seu filho Moreno. Fecha tudo com seu primeiro DVD, que estréia como especial de TV gravado ao vivo num dos shows da turnê de Público.
E aí estamos em 2002. Coerente com o que sempre fez, Adriana lança um disco que certamente não é nada do que esperavam os milhões que a viam como a cantora de Devolva-me. Pelo contrário: é mais uma produção radicalmente Adriana Calcanhotto, com aquela garantia de sofisticação e arrojo que acalma os corações dos velhos fãs. O disco se chama Cantada. E além de contar com os eternos parceiros Waly Salomão, Péricles Cavalcanti e Antonio Cicero, aproxima ainda mais a quase quarentona com cara de menina da renovada cena carioca, composta por gente dez anos mais nova, mas que tem seu mesmo mix de erudição e abertura de gêneros. Estão todos lá: o trio experimental Moreno + 2, o pianista Daniel Jobim, o grupo de drum´n´bossa BossaCucaNova. Aliás, uma curiosa ponte de gerações. Moreno, como se disse, é filho de Caetano, Daniel é neto de Antonio Carlos Jobim, o BossaCucaNova tem como integrante o filho do bossa-novista Roberto Menescal. Três linhas mestras da formação da moça, agora tornada ponte e referência entre uma geração e outra. Como cantara na canção de Arnaldo Antunes e Péricles Cavalcanti, 10 anos antes:

Antes de mim vieram os velhos
Os jovens vieram depois de mim
E estamos todos aqui

(...)

No meio do caminho dessa vida
E estamos todos no meio
Quem chegou e quem faz tempo que veio
Ninguém no início ou no fim

O disco é quase todo de músicas próprias, mas resplandece uma brilhante versão para Music, da Madonna, descarnada em voz, violão e vários pianos dedilhados e percutidos, sobrepostos por Daniel Jobim. Mais um dado na (des)construção de sua errante identidade pública. E que acaba comprovando sua sabedoria em investir no risco: se obviamente não repete a marca de popularidade do anterior, a sedimenta em um novo patamar alcançado desde Maritmo: a dos artistas com vendagens superiores a cem mil cópias. Além disso, ganha novamente o popularesco Troféu Imprensa, desta vez como Melhor Cantora, e diretamente das mãos do presidente da rede de TV que promove o prêmio: Sílvio Santos, o maior self-made man nacional, uma espécie de Cidadão Kane do Brasil.
Cercada de uma banda de novos cariocas, como se fechasse um ciclo, o show de Cantada estréia numa cidade que não tinha esse privilégio há 14 anos: Porto Alegre, a terra de seus primeiros passos, primeiros tombos, primeiros saltos. Dali, o show corre mundo, a levando novamente por todo o Brasil, Portugal e, pela primeira vez, Espanha. Em Portugal, sua popularidade já é tamanha que uma editora local, a Quasi Edições, edita um volume com letras, ensaios e fotografias, chamado Algumas Letras.
Começa a estreitar sua relação com a obra de Vinícius de Moraes, no ano em que se comemorariam os 90 anos do diplomata e poeta brasileiro que foi um dos três pilares da criação da Bossa Nova (suas letras, as músicas de Jobim e a voz e violão de João Gilberto). Canta em homenagens a ele, lê num programa de TV os poemas vencedores do I Concurso de Sonetos Vinicius de Moraes. Grava em discos de ex-parceiros seus, canções compostas com ele. Tudo culmina com o lançamento do livro O Poeta Aprendiz, onde se lança pela primeira vez numa aventura desse porte na área de artes visuais: são suas todas as ilustrações para o texto que é o de uma longa canção de Vinicius sobre seus tempos de menino. Junto ao livro, um CD com duas versões da música (parceria de Vinicius com o compositor Toquinho): uma, cantada por Adriana; outra, só com o playback, para as crianças cantarem junto. Cruzam-se ali a artista visual e a artista para crianças que logo irá eclodir, depois de anos de gestação.
A partir de várias gravações iniciadas e abandonadas ao longo dos anos, em abril de 2003 finalmente finaliza Adriana Partimpim, seu disco de criança-para-criança. Porque essa nova Adriana é, e não é, a mesma Calcanhotto. Na mesma época em que recebe o prêmio da Academia de Música Espanhola na categoria Revelação Latina e estréia na Itália, assina contrato com a BMG em nome de... Adriana Partimpim. Efetivamente uma outra Adriana, como não é outro Fernando Pessoa Álvaro de Campos. Partimpim não sendo um pseudônimo, mas sim um heterônimo. Criado não ali, mas sim... aos três anos de idade, quando era ainda uma pequena filha única que passava seus dias com a babá e seu radinho.
Partimpim, a Adriana sem nenhuma preocupação além do lúdico, lança seu disco no meio do ano, e faz um sucesso crescente na medida em que vai sendo descoberto por pais e filhos. E, num fato inédito para um CD do gênero, toca até no rádio uma de suas canções: a encantadora versão de Fico Assim Sem Você, da dupla de charm Claudinho & Buchecha. E o disco é isso: músicas não necessariamente compostas para crianças, mas com um hábil senso do que pode encantá-las. Seu show só estréia no ano seguinte, e, para os padrões de Adriana, viaja pouco. Mas chega a ser apresentado em várias capitais brasileiras e em Portugal. Felizmente seu deslumbre fica eternizado com o lançamento em DVD – dirigido por Susana Moraes, como Público - e CD, reunidos ou separadamente, no final de 2005. Leva uma série de prêmios, como o “Faz Diferença”, do Jornal O Globo, e o Prêmio Tim de Melhor Disco Infantil. Completa o ano com uma participação no festival de cinema de San Sebastian, na Espanha, a propósito do filme-biografia Vinicius, sobre Vinicius de Moraes, onde aparece cantando.
E aí, quando parecia que havia se esgotado sua cota de surpresas, a Adriana novamente Calcanhotto é convidada para participar de uma mostra coletiva de... artes visuais! Entre a Palavra e a Imagem é um misto de exposição e seminário de estética, reunindo artistas brasileiros, espanhóis e portugueses. Vai passar por Espanha e Portugal neste 2006 e desembarcar no Brasil ano que vem. E a trans, pan, multidisciplinar Adriana participa com uma pequena série de colagens... visuais! Para uma craque nas colagens musicais, nada tão novo assim. Mas, de qualquer forma, estar lado a lado com ídolos seus como os catalães Antoni Tàpies e Joan Brossa já dá um frio na barriga. Mesmo em quem é do Rio Grande. Mesmo em quem não tem medo de nada. Mesmo numa artista tão singular quanto Adriana Calcanhotto.

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